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  • Philippe Sionneau

ENVOLTÓRIO OU MESTRE DO CORAÇÃO?


A utilização da expressão “mestre do coração” para traduzir xīn bāo (心包), é uma tradução incorreta. Ela é dominante nos textos e na linguagem de idiomas de origem latina (como o português), mas é inexistente na língua inglesa ou alemã.

Em primeiro lugar, nada nos clássicos médicos, inclusive nos mais antigos, pode endossar esta tradução. Nada nas funções deste órgão justifica esta “adaptação romântica”. Literalmente acontece o mesmo, visto que xīn (心) significa “coração” e bāo (包) “envoltório” ou “proteção”. Por que não traduzir simplesmente xīn bāo (心包) como “envoltório do coração” ou “proteção do coração”?

Por outro lado, a tradução “mestre do coração” realça falta de conhecimento da cultura chinesa. O coração é o imperador. Se de fato existem ministros, conselheiros, instrutores ou governadores que agem em seu nome, não existe um “mestre”, porque o imperador é o filho do céu e ocupa a posição mais elevada em termos de hierarquia terrestre; ele é o vínculo entre o céu e a humanidade. Como poderia haver um mestre encalhado entre ambos?! Táng Zōng Hǎi fala-nos com clareza sobre este assunto: “o coração tem a função de monarca, o envoltório do coração é o ministro, por este motivo o coração corresponde ao fogo monarca e o envoltório do coração corresponde ao fogo ministro” (Xuè Zhèng Lùn – Tratado das síndromes do sangue).

Não existe nada acima do imperador a não ser o céu. Em qualquer caso não pode haver um mestre. O imperador é o mestre, o mestre absoluto. Assim sendo, a expressão “mestre do coração” desvia-se da cultura chinesa antiga. Então, por que um termo tão inadequado como “mestre do coração” foi escolhido? Na minha opinião, a confusão é provocada por outro termo: shǒu xīn zhǔ (手心主), que pode ser traduzido como “governador cardíaco da mão” ou, eventualmente, “mestre coração” e não “mestre do coração da mão”. Esta expressão é minoritária nos clássicos em relação a xīn bāo (心包). Além disto, não possui o sentido de um mestre que dirige o imperador, mas sim a de governador que age em seu nome. Como o envoltório do coração transmite as ordens do imperador através do sistema sanguíneo, ele é o representante do coração e não o seu mestre! Este termo é pela primeira vez evocado no Huáng Dì Nèi Jīng Líng Shū (capítulos 10, 11, 12).

Para além do já exposto, se queremos manter a coerência e decidimos traduzir shǒu xīn zhǔ (手心主) como “mestre do coração”, o termo zhǔ (主) também teria que ser traduzido como “mestre” ou “controlar” quando fazemos referência às funções dos órgãos. Por exemplo, pí zhǔ sī (脾主思) deveria ser traduzido como: "o baço 'controla' o pensamento", o que não é de todo a tradução correta desta frase! Esta incoerência reforça a ideia da tradução inadequada da expressão “mestre do coração”.

Na cultura chinesa, a palavra zhǔ (主) não é utilizada para fazer referência a um mestre (aquele que domina uma arte e que a transmite aos seus discípulos), sendo que as expressões utilizadas para este efeito são lǎo shī (老师) ou shī fù (师傅). Zhǔ (主) é o "anfitrião" ou o "mestre dos escravos", termo pouco adequado para falar do Imperador!!! Finalmente, na grande maioria dos casos xīn zhǔ (心主) utiliza-se para falar do canal, enquanto xīn bāo (心包) é utilizado para descrever o órgão. Por este motivo, podemos falar de “governador cardíaco da mão” (shǒu xīn zhǔ (手心主)) para nos referirmos ao canal shǒu jué yīn (que é o nome mais frequente do canal do envoltório do coração - xīn bāo (心包)) quando nos referimos ao órgão que protege o coração.

Para finalizar, sublinharia que nenhum dos grandes sinólogos da atualidade especializados na medicina chinesa (Nigel Wiseman, Elisabeth Rochat, Paul Unschuld, Dan Bensky, etc.), traduz xīn bāo (心包) ou xīn zhǔ (心主) por “mestre do coração”... NENHUM! Isto deveria alertar os docentes e estudantes lusófonos e os seus colegas franceses, italianos e espanhóis que, repito, são os únicos a utilizar esta tradução estranha.

Falar de “mestre do coração” quando nos referimos ao órgão xīn bāo (心) é um “sem-sentido” que se arrasta nos países com línguas de origem latina e que devemos abandonar em absoluto. “Envoltório do coração” é a tradução que eu utilizo, visto ser a mais literal, a mais simples e a mais direta. Outros autores traduzem xīn bāo (心包) por “pericárdio”. É aceitável mas demasiado ocidentalizado e restritivo, porque este órgão não é só um tecido orgânico, mas um conjunto de funções que ultrapassam amplamente o conceito ocidental de “pericárdio”. É aceitável, mas a minha experiência tem-me demonstrado que, quanto mais utilizamos termos da medicina ocidental, mais restringimos o sentido da palavra chinesa e, para além disto, existe um risco de confusão com o termo ocidental, por isso “envoltório do coração” é realmente o termo mais adequado.

Existem ainda outras expressões para designar o “envoltório do coração”.

A primeira é xīn bāo luò (心包络) ou bāo luò (包络) que também pode ser traduzida como “envoltório do coração”. A armadilha habitual é acreditar que luò (络) aqui significa “colateral”, “vínculo” ou “rede”. Aqui o significado de luò (络) é “envolver, beijar, conter, enredar-se à volta de, abraçar...”. Neste caso, quando luò (络) está junto ao caractér bāo (包), reforça a ideia de envolver. No idioma chinês é comum juntar dois termos cujo significado é semelhante para reforçar uma ideia precisa. “Bāo luò (包络)” é um exemplo típico. A expressão xīn bāo luò (心包络) vem reforçar a ideia de “envoltório” que demonstra que o termo pericárdio, que significa literalmente “à volta do coração”, não é perfeitamente adequado. Em todo caso, não concordo com o fato de que xīn bāo luò (心包络) signifique “rede que envolve o coração” ou “colateral do mestre coração”… nenhum clássico ou dado cultural justificam esta tradução.

O segundo termo é “pequeno coração”, xiǎo xīn (小心). O terceiro é dàn zhōng (膻中), utilizado pela primeira vez no capítulo 8 do Huáng Dì Nèi Jīng Sù Wèn. Este termo corresponde a três aspetos distintos. O primeiro, como acabamos de dizer, é outro nome para designar o envoltório do coração. Em segundo lugar, é um centro de energia no centro do peito onde se acumula o zōng qì, o qì confluente. Também é denominado “mar do qì superior (shàng qì hǎi (上气海))” no capítulo 23 do Huáng Dì Nèi Jing Líng Shū. Por último, é um ponto de acupuntura, o VC17 (dàn zhōng (膻中)), que é o ponto mù-coletor (募) do envoltório do coração.

“O coração alberga o espírito (shén (神)), é o fogo monarca. O envoltório do coração é o fogo ministro, ele substitui o imperador para executar as suas ordens, governa o sangue, governa a palavra, governa a transpiração, governa o riso” (Běn Cǎo Gāng Mù – Compêndio de matéria médica).

Tradução: Michael Garcia

Revisão: Sílvia Ferreira

© Copyright Philippe Sionneau

Crédito da Figura: Wellcome Collection.


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