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Wŭ Xíng (五行): CINCO ELEMENTOS, CINCO FASES OU CINCO MOVIMENTOS?


Nesta profissão emergente que é a medicina chinesa no Ocidente, muitos são os problemas que impedem um harmonioso e ortodoxo desenvolvimento deste sistema médico. Um dos problemas essenciais é o pouco conhecimento da linguagem médica chinesa no meio do ensino. O resultado são traduções aproximadas, incoerentes e por vezes errôneas. Professores, estudantes e profissionais não possuem uma terminologia comum para se comunicarem e entenderem. Sem dúvida alguma, o idioma chinês é essencial para a medicina chinesa desde a sua origem e, sobretudo, para a sua transmissão. Para ilustrar o meu ponto de vista, vou utilizar a expressão Wŭ Xíng (五行) a qual, dependendo do autor, é traduzida como “Cinco Elementos”,“Cinco Fases” ou “Cinco Movimentos”.

O quê significa Wŭ Xíng?

Água, madeira, fogo, terra e metal [das teorias da medicina chinesa], embora possam ser as substâncias água, madeira, fogo, terra e metal em si mesmas, geralmente não representam as qualidades materiais destes cinco “aspectos”. Os Wŭ Xíng são as cinco qualidades, as cinco propriedades, as cinco naturezas universais que caraterizam o conjunto dos objetos ou fenômenos do nosso universo manifestado. Eles correspondem também aos cinco ciclos do processo natural e irreversível da transformação natural de todos os seres e de todas as coisas. Por outras palavras, são as cinco etapas do ciclo de crescimento/decréscimo do yīn e do yáng, de onde se origina toda a manifestação ou, ainda, os cinco tempos da incessante “valsa da transformação” que são a origem do nosso mundo.

Todos estes conceitos implicam a ideia de ciclo, de transformação, de movimento. Este é o motivo pelo qual prefiro traduzir Wŭ Xíng como “Cinco Movimentos”. Mas também poderíamos falar de cinco fases, cinco tempos de transformação, cinco estados de mudança, etc. No entanto, o termo “Cinco Elementos” me parece inadequado e demasiado impregnado do pensamento grego. Embora inicialmente, os Cinco Movimentos fossem descritos como sendo eles próprios materiais, rapidamente passaram a constituir o símbolo do movimento e da transformação do yīn e do yáng. O eminente sinólogo Feng You Lang diz no seu Précis del'histoire de la philosophie chinoise: “o termo Wŭ Xíng traduz-se habitualmente por Cinco Elementos. Não devemos, no entanto, considera-los como elementos estáticos, mas sim como cinco potências dinâmicas que reagem umas às outras”…

A minha amiga Elisabeth Rochatde la Vallée ressalta que, inicialmente, o termo “elemento” no contexto filosófico grego, incorporava uma ideia de dinamismo. Apesar de toda a admiração que tenho por ela, isto não é suficiente para traduzir xíng (行) como “elemento”. Além disso, na ideia do público ocidental, incluindo os eruditos, o termo “elemento” está mais associado aos quatro componentes primordiais “quase-físicos” que compõem todas as coisas (água, ar, terra e fogo), o que me parece afastado da ideia de fase, ciclo e movimento que integram os Wŭ Xíng. É preciso ter em consideração que os chineses estão mais interessados em saber como as coisas evoluem, agem e interagem umas com as outras, do que saberem qual a sua composição física. É isto que faz com que a anatomia física da medicina chinesa esteja completamente “atrofiada e abandonada”, enquanto as relações sutis entre os diferentes componentes do corpo sejam muito precisas.

Qual é o significado dos ideogramas Wŭ Xíng (五行)?

Do meu ponto de vista, o estudo do ideograma Wŭ Xíng (五行) culmina permanentemente o debate:

Wŭ (五) significa cinco, sem qualquer ambiguidade.

Segundo os dicionários modernos, Xíng (行) é traduzido como “marchar, avançar, deslocar-se, mover-se,circular, movimento”, mas também, segundo a pronúncia hang, o mesmo ideograma significa “estrada, caminho” e também “provisório,temporário”...

Xíng (行) é composto por duas partes. A da esquerda significa o “cruzamento” de uma estrada. Associada à parte direita, o significado passa a ser o passo do pé direito e o do pé esquerdo [andar, marchar]. O conjunto dá-nos a ideia de andar por uma estrada ao nível de um cruzamento. Marchar dá uma ideia de movimento. Mas ao quê é que corresponde a noção de cruzamento? Trata-se do encontro do yīn e do yáng que induz o movimento. Estamos falando dos “cinco” movimentos. Assim podemos deduzir que yīn e yáng induzem os cinco caminhos, as cinco circulações temporárias do qì. Dizemos “temporárias” porque este é um dos sentidos do ideograma xíng (行) e porque estes movimentos são fases sucessivas, pontuais, temporárias, que dão o ritmo ao ciclo de crescimento/decréscimo do yīn yáng.

Conclusão

No fim, temos que reter que Wŭ Xíng incorpora uma noção de circulação, de movimento, de ciclo, que não traduz o termo “elemento”. Neste contexto,a palavra “movimento” é a mais adequada. Wŭ Xíng descreve também uma noção de propriedade, de qualidade que determina e especifica o conjunto dos fenômenos, e que não traduz o termo “fase”. “Movimento” não reflete a noção de qualidade. No entanto, faz parte dos termos corretamente utilizados nos dicionários de chinês ocidental para o ideograma xíng (行), que não é o caso de “fase”.

A maior parte dos alunos e dos professores não têm consciência da elevada precisão dos termos utilizados na medicina chinesa e da importância do idioma chinês na transmissão do seu conhecimento através dos séculos. Uma expressão nem sempre pode ser substituída por outra; cada uma transmite todo um universo de compreensão. Vejamos, por exemplo, os princípios terapêuticos relacionados à umidade.

1. Quando dizemos “remover a umidade” (qū shī - 祛湿), isto quer dizer evacuar uma umidade de origem externa que geralmente se encontra no nível superficial do corpo, das articulações, dos canais. Isto faz referência a uma condição patológica muito particular, a uma estratégia terapêutica e a substâncias medicinais específicas (geralmente picantes).

2. Quando dizemos “secar a umidade” (zào shī - 燥湿), isto evoca sobretudo o tratamento da umidade interna e abundante com substancias medicinais amargas (quentes ou frias, segundo a natureza da umidade). Isto corresponde a um princípio terapêutico e a remédios diferentes da situação precedente.

3. Quando dizemos “transformar a umidade” (huà shī - 化湿), isto significa transformar metabolicamente a umidade que está acumulada no aquecedor central graças à ação de substâncias medicinais aromáticas (como fructus amomi (shā rén), cortex magnoliae officinalis (hòupò), rhizoma atractylodis (cāng zhú), etc.). Mais uma vez, isto corresponde a um estado patológico, a uma estratégia terapêutica e a remédios específicos que nada têm a ver com os anteriores.

4. Quando dizemos “fazer fluir/eliminar a umidade” (lì shī - 利湿), isto evoca uma evacuação da umidade, principalmente por via interna, através da via urinária. Quer seja a nível de acupuntura ou de farmacologia, corresponde a uma ação diurética para desfazer-se da umidade situada ao nível da bexiga, do útero, da pele por exemplo, ou combinada com mucosidades. A ação sobre a umidade não é a mesma que nos três primeiros casos.

5. Quando dizemos “exsudar a umidade” (shèn shī - 渗湿), evocamos uma evacuação suave da umidade, pela via urinária, através do sabor insípido (dàn - 淡). Remédioscomo sclerotium poriae cocos (fú líng), rhizoma alismatis (zé xiè),semen plantaginis (chē qián zĭ), sclerotium polypori umbellati (zhūlíng), possuem esta característica de serem diuréticos “suaves” devido ao seu sabor insípido. Eles são utilizados quando a acumulação de umidade é devida a um vazio onde não é possível drenar fortemente com o risco de lesar o ZhengQì (Qì Correcto). Trata-se de novo de uma situação e de uma estratégia terapêutica diferente de todas as anteriores.

Isto significa que para um mesmo fator patogênico, neste caso a umidade, existem diferentes situações patológicas que correspondem a estratégias terapêuticas específicas e, portanto, a pontos de acupuntura e a plantas medicinais diferentes. Vemos assim que, no idioma chinês, o termo utilizado irá imediatamente informar o leitor, o médico, o estudante, o professor, sobre o tipo de umidade e o seu universo terapêutico.

É muito comum que obras de autores conhecidos, ou professores, utilizem o mesmo termo para todos os tipos de umidade. Eles não levam em conta a riqueza e a precisão da terminologia da medicina chinesa. Todos vamos perder em termos de eficácia, clareza e rigor. Isto é inaceitável numa ciência médica. Não é necessário ser obcecado com a terminologia da medicina chinesa, mas será bom que a nossa profissão adote uma linguagem comum que permita a todos os seus“atores” comunicarem-se com fluidez e compreensão.

Tradução: Michael Garcia

Revisão: Vanessa Costa Leite, Sílvia Ferreira

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