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  • Philippe Sionneau

EMOÇÕES NA MEDICINA CHINESA: ESCLARECIMENTOS


Desde a publicação do meu livro “Distúrbios psíquicos em medicina chinesa” (Edições Trédaniel), minhas pesquisas me permitiram aprofundar algumas noções nesta área. Eu gostaria de sublinhar neste artigo a importância da “relatividade” da ligação emoção/órgão que eu já tinha abordado no livro. Na mesma proposta, eu proponho um quadro que recapitula os 3 níveis de significado de cada emoção. Enfim, na terceira parte, eu apresento os esclarecimentos sobre a noção “Gui”, os espíritos terrestres que estão relacionados ao Po. Alguns leitores pensaram que esta era uma invenção pessoal visando permanecer na corrente de pensamento de alguns autores franceses muito “imaginativos”. Bom, não é. A noção “Gui” é totalmente fundamentada nos textos clássicos. Eu apresento aqui alguns dados precisos deste assunto delicado.

As cinco emoções não são um sistema rígido
A classificação das emoções segundo os cinco movimentos (Wu Xing) não deve ser utilizada como um sistema rígido e reducionista. Ao contrário, como o conjunto das relações descritas na teoria dos cinco movimentos, trata-se mais de uma simbologia que abrange realidades mais amplas. Nós estamos lidando com 5 categorias de energia emocional que correspondem a numerosos fenômenos psíquicos. Muito praticantes consideram que cada emoção de base tem relação com apenas um único órgão. Isto é demasiadamente reducionista. A maioria das emoções podem implicar diferentes órgãos ou fatores patogênicos. Para ser mais concreto, aqui estão alguns exemplos precisos retirados da literatura chinesa (principalmente de Qi Qing Bing Bian Liao – Tratamentos baseados na diferenciação das doenças dos sete sentimentos, de Yu Kuang Qing, Edições científicas médicas da China, Beijing, 1998) que demonstram claramente que as coisas são um pouco mais complexas do que a equação simplista: “uma emoção específica=um órgão específico”.

1 – A tristeza pode ser induzida por uma deficiência de Qi do Pulmão. Os sintomas chaves serao então: tristeza sem razão, choro, fadiga psíquica, respiração curta, voz baixa, lingua pálida, saburra branca, pulso fino (Xi), fraco (Ruo), sem força (Wu Li). “ o Jing Qi se acumula no Pulmão, então ocorre a tristeza” (Huang Di Nei Jing Su Wen).

2 – A tristeza pode ser induzida pela deficiência de Qi do Baço. Os sintomas chaves serão então: tristeza, choro, inaptência, fadiga psíquica, falta de força, gosto insípido na boca, diminuição do paladar, lingua pálida, saburra branca, pulso fino (Xi) e sem força (Wu Li).

3- A tristeza pode ser induzida por uma deficiência de Qi do Coração. Os sintomas chaves serao então: tristeza, choro, palpitações, taquicardia, insônia, sonhos abundantes, compleição pálida, lingua pálida, saburra branca, pulso fino (Xi), amarrado (Jie), interrompido (Dai). “O Qi do Coração está deficiente, então há tristeza”, (Huang Di Nei Jing Ling Shu).

4- A tristeza pode ser induzida pela deficiência de Qi do Fígado. Os sintomas chaves serao então: tristeza, choro, irritabilidade, insônia, sonhos abundantes, múltiplos pesadelos, fadiga psíquica e física, lingua pálida, saburra branca, pulso fino (Xi), em corda (Xian). “ a tristeza do Fígado se agita no interior então fere a Alma Etérea”, (Huang Di Nei Jing Ling Shu)

5- A tristeza pode ser induzida por uma deficiência de Qi do Rim. Os sintomas chaves serão então: tristeza, choro, demência, vertigens, acúfenos, região lombar e joelhos doloridos e fracos, língua pálida, saburra branca, pulso profundo (Chen) e fino (Xi).

6- A tristeza pode ser induzida por uma deficiência de Qi da Vesícula Biliar. Os sintomas chaves serão então: medo, sensação de terror ao menor estímulo, inquietude, tristeza, choros sem razão aparente, língua pálida, saburra branca, pulso fino (Xi) e em corda (Xian).

7- A tristeza pode ser induzida por um acúmulo de mucosidade. Os sintomas chaves serão então: demência, alternância entre alegria e tristeza, choro e riso sem razão aparente, opressão torácica, distensão do tórax, saburra branca e pegajosa, pulso escorregadio (Hua), sem força (Wu Li). “no meridiano do Pulmão, há mucosidade secura (…) tristeza, inquietude, mal estar, além disso a mucosidade é adstringente e difícil de expulsar”, (Yi Zong Bi Du – leituras médicas obrigatórias) (1)

8- A tristeza pode ser induzida por uma estagnação de sangue. Os sintomas chaves serao então: tristeza, choro, agitação-disforia, perda de memória, língua escura ou com manchas de estagnação, pulso rugoso (Se).

Observa-se, então, que a tristeza não está somente associada ao Pulmão mas também a, pelo menos, cinco outros órgãos Zang ou Fu e à duas produções patógenas: mucosidade e estagnação de sangue. Isto deve nos fazer compreender que embora as emoções sejam particularmente associadas a um órgão específico, nosso diagnóstico não deve depender de uma idéia pré concebida e reducionista que poderá nos induzir ao erro. Nós devemos sempre enquadrar um sintoma chave dentro de um contexto geral que confirme a origem e natureza daquele sintoma. Quer dizer, se a tristeza é acompanhada de sintomas de deficiência do Pulmão, então o Pulmão realmente está envolvido. Por outro lado, se ela não está acompanhada de sinais de Pulmão, mas por sintomas de umidade-calor na Bexiga, então o diagnóstico correto sera umidade-calor na Bexiga, mesmo se esta idéia pareça estranha a nossa equação mental simplista “tristeza=pulmão”. Um sintoma sozinho não tem valor, só quando está contextualizado é que adquire significado.

Recapitulação do significado das emoções

Podemos considerar que existem três níveis de expressão para cada emoção. O primeiro se situa a nível do espírito associado à emoção (Wu Shen). Ele representa o aspecto mais nobre, mais espiritual, mais natural da emoção. O segundo representa a emoção associada aos órgãos Zang. Trata-se da emoção “normal”, “fisiológica” que constitue o tecido primordial de nossa vida afetiva e emocional. O terceiro é o desvio patológico das cinco emoções (Wu Zhi) que se transformam então em sete sentimentos (Qi Qing), principais causas internas das doenças. Para esclarecer, retomemos o exemplo da tristeza. Ao nível do Shen (espírito), trata se da emoção veiculada pela compaixão que nos permite sentir a tristeza e a piedade pelos males que atingem as outras pessoas. Ao nível do órgão, trata-se da emoção produzida pela perda de um ente querido, aquela do luto. Ao nível patológico trata-se da tristeza que perdura e que leva à insatisfação com a vida. Vemos que cada situação psicológica descrita anteriormente corresponde a fenômenos diferentes, embora tenham uma ligação entre si. É importante notar que, no que se refere às emoções e os cinco espíritos (coluna da esquerda) é uma dedução pessoal. É necessário, então, entender esta parte como uma tese de trabalho e não como um afirmação da tradição médica chinesa. As traduções de base das cinco emoções são as seguintes: Xi= alegria, Nu= raiva, Bei= tristeza, Si= preocupação, Kong= medo.

Os Espíritos Terrestres : os Gui

O termo Gui pode ser traduzido pelo espírito maligno, fantasma, demônio, espectro. Gui corresponde ao espírito do defunto que ainda está ligado ao mundo terrestre. Nós os chamamos de errante, procurando se apossar de um novo corpo (2).

A natureza do Gui é oposta àquela do Shen. Shen (espírito) é de origem celeste, Gui de origem terrestre. Shen é bem-feitor, Gui é mal-feitor. Shen é universal, Gui individual. Shen é divino, Gui demoníaco. Shen é centrífugo, Gui centrípeto. Shen é luminoso, Gui obscuro, etc. Nós poderíamos definir os Gui como sendo forças terrestres, centrípetas, descendentes, fixadoras, separadoras, mórbidas, destrutivas e individualistas.

No organismo, estes Gui são associados ao Po. O Po representa a utilização dos Gui pelo Shen para gerar um corpo e uma individualidade. O Po permanece no Pulmão. É o aspecto físico do Pulmão. O Po é a influência Metal do Shen: descendente, denso, separador. É a manifestação mais material, a mais terrestre da consciência.

Po é feminino, de natureza Yin. É imóvel e frio. O corpo (a forma – Xing) pertence ao Po. Nós falamos do Po, mas na verdade existem 7 Po que animam o Ser Humano. Os 7 Po são considerados espíritos mal-feitores. Segundo alguns textos de alquimia taoísta, eles se chamam: Shui Gou (Cachorro Cadáver), Fu Shi (Cadáver Enterrado), Que Yin (Demônio Pardal), Du Zei (Monstro Glutão), Fei Du (Veneno Deslumbrante), Chu Sui (Varredor de Lixo), Bi Chou (Caçador de Fedores) (3). Nas representações destes textos taoístas, eles tem aparências de seres demoníacos e monstruosos. Enquanto os 3 Hun sustentam a vida, os 7 Po favorecem os princípios de morte e em particular os “3 cadáveres” (San Shi), verdadeiros processos mórbidos e mortíferos mesmo dentro da vida.

É interessante constatar que dentre as numerosas tradições que a ciência moderna classifica como primitivas, as doenças eram consideradas como uma forma de possessão demoníaca. Os demônios do Cristianismo, os djinns do Islamismo, os bhouts do Hinduísmo, os Gui do Taoísmo certamente têm em comum uma origem xamânica anterior ao aparecimento das grandes religiões ou filosofias. Os demônios, os monstros, os imortais, o sobrenatural em geral sempre estiveram presentes na cultura chinesa desde a sua origem, provavelmente impregnada desta cultura xamânica muito antiga. No entanto, não se trata aqui de acreditar ou não na existência destes espíritos malignos. É importante tomar estes conceitos como uma representação possível da realidade, uma maneira de explicar os fenômenos seguindo uma certa raiz de pensamento. Se numa visao taoísta da medicina chinesa é útil imaginar que os corpos são constituídos de demônios, por que não se propor a investigar por um instante, onde isso pode levar à uma eficácia clínica? De fato, a “natureza demoniaca” do Po e “divina de “Hun” pode explicar certas tendências patológicas do comportamento psíquico humano. Pertencendo à esta tradição médica, me pareceu justo que esta concepção seja integrada no estudo da medicina chinesa, mesmo se nos for proibido de relativizá-la e de restringí-la à seu contexto cultural e à nossa prática clínica.

Notas

(1) Livro da época dos Ming, escrito em 1637 por Li Zhong Zi (aliás Li Nian E, Li Shi Cai) que viveu de 1588 à 1655. Influenciado pelas correntes médicas dos Song, dos Jin e dos Yuan e também pelos trabalhos do ilustre Zhang Zhong Jing, originou várias obras dentre as quais um famoso comentário do Nei Jing Zhi Yao (conhecimentos essenciais do Nei Jing). Ele nasceu em uma família de mestres de Wu Shu. Doente, ele caminhou para o estudo dos clássicos da medicina chinesa como autodidata. Após anos de estudos e prática, foi considerado como um dos grandes médicos de sua época.

(2) em algumas correntes taoístas, Gui representa o espírito dos seres que é condenado a continuar os ciclos de renascimento em oposição ao Shen que é o espírito de uma pessoa tendo atingido a imortalidade

(3) O nome dos 7 Po vem do livro “Taoísmo e corpo humano”, de Catherine Despeux, Editora Trédaniel.

Tradução: Silvia Ferreira

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